quarta-feira, 25 de julho de 2012

“Deus, Eu e um Buraco”



Olá caríssimos irmãos, a paz de Cristo e o amor de Maria. Quero partilhar com todos um fato de minha vida, que apresento como:  Deus, Eu e um Buraco”.
No dia 20 de julho de 2011, estávamos preparando um acampamento para os jovens. Tudo estava indo muito bem. Jovens empolgados, equipe pronta, tudo preparado para que acontecesse o evento.
         No mesmo dia, pela noite, aconteceria em Anhumas o ultimo dia de preparação da equipe. E lá estávamos. Prontos para o acampamento. Existia em mim um misto entre os sentimentos de ansiedade e cansaço, já que o dia tinha sido puxado por conta dos preparativos. Momento finalizado. Eu, por ser o motorista, me vi responsável por ir embora e trazer os jovens no dia seguinte. E nada, nada tirava isso da minha cabeça: “é necessário ser responsável.” Arrumei minhas coisas e saí.
         Dei carona a uma garota até Presidente Prudente. Conversávamos e tudo foi tranqüilo. Deixei-a em sua casa e prossegui com o meu trajeto. O cansaço era evidente, mas nenhuma aparência de sono. Ouvia música, cantava, conversava comigo mesmo. E em uma parte do meu trajeto, o sono me abraçou. Perdi a direção da Kombi que eu dirigia. Bati em uma placa, andei sobre uma parte da mureta de proteção que se encontra na rodovia e caí de ponte.
         Era difícil reconhecer as coisas, o que me rodeava, os perigos que eu, mesmo sem saber, enfrentaria. Tive um sentimento de perda. Me senti como alguém que morreria ali naquele buraco.
         Senti frio, sede, fome... medo. O medo na verdade me dominava. E quando eu já me desesperava por conta do forte medo que me consumia, me concentrei e me coloquei em oração. Era difícil me concentrar, mas era necessário. Eu sentia que Deus tinha algo pra falar comigo naquele lugar.
         O cheiro da gasolina tomara conta da Kombi, e não restava outra coisa a fazer do que me lançar para fora. Soltei o cinto, sentei na beira da Kombi, e comecei a minha primeira oração. Foi só então que descobri que tinha quebrado minha perna. E ainda assim, continuei concentrado em minha oração. Percebi que eu estava longe do chão, que onde estava era alto. Mas a oração me encheu de coragem. Lancei-me para fora. Senti dor ao cair, mas me senti mais seguro, salvo.  Tive a certeza de que Deu me segurou na queda. Deitei-me no chão e aguardei. O local onde caí, não era visível. Passavam carros na ponte, mas ninguém podia me ver nem me ouvir. Não vi alternativa a não ser continuar rezando. Cantei, gritei, (por um momento) até me alegrei.
         A certa altura da madrugada, pus a mão no bolso e encontrei meu terço. Naquele momento eu senti a presença de Deus muito forte. Foi um momento de total entrega à vontade de Deus. Comecei rezar meu terço, com todos aqueles sentimentos que poderiam me fazer desistir de rezá-lo. Meu coração sentiu uma paz muito grande. Maria estava comigo naquele lugar. Era como se minha cabeça estivesse apoiada em seu colo e ela me afagava, como se dissesse: ”filho, mamãe está aqui”. Confesso que o meu medo não passou naquele momento. Ainda me prendia às coisas que poderiam me rodear, os perigos daquele buraco escuro. Terminei o terço, e o resgate ainda não chegara. Fui ficando agoniado, e o desespero me encontrou novamente. Então decidi rezar mais um terço, para que essa segurança de estar com Nossa Senhora não me abandonasse. Cansado, e com sono, rezei o terço e pedi, com muita fé, para que toda aquela situação se findasse com rapidez.
Qu0ando terminava o quinto mistério, olhei para cima e vi o brilho de um “Giroflex”. Era o carro da concessionária que cuida da rodovia. Ele parou para ver a placa que eu havia derrubado. Quando vi as luzes, gritei por socorro, assoviei, o funcionário da concessionária apareceu na beirada da ponte e me procurou com uma lanterna. Ele me encontrou, ligou para o resgate e para a polícia. De lá de cima, me acalmou e disse que o resgate estava a caminho. Logo chegou o resgate, e veio ao meu encontro. Uma pessoa perguntou se eu estava bem, mas não estava a minha vista. Pediu o documento, eu entreguei, e ele me disse: ”Olá Rafael, sou Jesus. Soldado da polícia rodoviária”. Foi mais um sinal do amor de Deus. Em meio á mística de tudo o que tinha acontecido, me recordei que fui resgatado por Jesus (mas não o Soldado, o próprio Senhor). Em menos de 10 minutos, os paramédicos e o Policial me tiraram daquele buraco. o buraco onde eu poderia ter gritado, chorado, sofrido, e até mesmo morrido. Mas a minha escolha para aquela situação foi me encontrar com Deus. Deus estava ali. Encontrei-me com Deus naquele buraco.
Fraternalmente
Rafael Marin 

  

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ONDE MANDARES EU IREI

Saudações desde Angola,

Com grande alegria missionária que saúdo a todos os leitores. Partilho com você outra realidade da Igreja, uma realidade de missão com os desafios humanos pós guerra, na diocese de Lwena, província de Moxico, extremo leste de Angola.

A paróquia onde estou, São Bonifácio, abrange todo o município dos Bundas. Tem a matriz em Lumbala N’Guimbo, são 40.000km2, aproximadamente 400km em linha reta, com 20 comunidades que tem capacidade de serem paróquia, não pelas estruturas mas sim pelas necessidades, com isso não é possível dar atenção que deveria em todas as comunidades, afinal, sou o único padre na paróquia. Temos um catequista em cada comunidade, que coordena a vida pastoral fazendo encontros de oração, catequese, orienta o povo na medida do possível. Quando o padre vai para celebrar, aproveita para atender confissões, visitar doentes, reunir com a comunidade, animar, escutar, passar o dia com o povo. As celebrações são muito festivas, muitos cantos animado pelos corais. O povo é muito unido, fraterno um com os outros.

É um povo que sofreu muito com a guerra e ainda percebemos resquícios na vida de muitos que participaram daquela época marcante. Os desafios humanos são muitos. Aqui estou no lado leste de Angola, perto da fronteira com a Zâmbia, uma realidade muito pobre e distante dos grandes centros. Os desafios visíveis são: Educação - tem poucos professores, muitas comunidades não há educadores;Saúde - no município dos bundas não tem médicos residentes atualmente, contamos com a ajuda de enfermeiros;
Formação Profissional – carecem, poucos tem a oportunidade de sair e estudar. Um povo muito dedicado, capacitado, mas falta quem lhes ensine.

Desafio religioso – muitas ceitas vem surgiram após a guerra, com a ausência de padre por anos, caiu muito o número de católicos. A feitiçaria é muito forte e favorece uma fé intermediária.
Os meios de evangelização são precários, o que dificulta muito, lutamos a cada dia pelos meios. Nossa vontade supera as dificuldades, porem, nem sempre conseguimos atingir onde queriamos.

A igreja da matriz foi destruida pela guerra, ainda não foi reconstituida por falta de recursos, temos um pequeno barracão que usamos para missas, reuniões, formação, eventos etc. Um barração feito a pau a pique com adôbe, o chão é terra batida, os bancos são tábuas no chão, não temos luz, as missas são celebrada apenas a luz do dia.A Igreja tem como essência a Missão. Todo batizado é convidado a ser missionário de Cristo, propagador da Boa Nova. Em meio a tantas dificuldades, Deus tem sido generoso nas graças.

Por Cristo não vale a pena, vale a VIDA!
Deus abençoe.
Oração e solidariedade pelo povo Angolano.

Em Cristo,
Pe. Deivid Rodrigues Martins - Angola